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Gastronomia por Roberta Sudbrack
10/09/2007 ..

Bilhetinhos e enochatos...



Cheguei em casa outro dia, de madrugada como de costume, e encontrei um bilhetinho amarrado numa panelinha que me esperava em cima do fogão. Dizia assim: coloque na geladeira caso não comer. A letra desenhada, daquelas à moda antiga, não deixava dúvidas: bilhetinho de vó!

Abri a panelinha, e mais uma vez não tive dúvidas: comidinha de vó! Carne batitinha na ponta da faca, mas não com duas facas, como nós cozinheiros metidos fazemos! Com uma mesmo, pequenina, pouco afiada, meio torta, mas extremamente amorosa e talentosa. Carne refogadinha com cenoura, inundada num molho cremoso e gelatinoso, fruto da paciência que só as avós, ainda mais a minha que é mãe também, têm. Na outra boca do fogão um arroz branquinho aguardava ansioso pelo momento de fumegar.

Sorri, um sorriso feliz apesar de exausto e meio desanimado. Guardei o bilhetinho, tomei meu banho e voltei para a cozinha. Aqueci esse banquete e tomei uma taça de vinho. Um vinho que havia sido devolvido, naquela noite no restaurante, por um enochato de plantão, sem a menor necessidade.

Nesses casos o procedimento é padrão, trocar o vinho sem argumentar ou deixar o cliente constrangido. De qualquer maneira, esteja ele bom ou ruim, depois de trocar, meu garçom chefe sempre leva um copo para mim na cozinha, para discutirmos sobre o estado desse vinho. Esse estava puro, vivo, um típico vinho de terroir! Evoluindo como só os seres vivos podem, crescendo, interagindo com o oxigênio, enfim, vivendo. Mas viver não é tarefa para qualquer um. Evoluir também não!

Tomei minha taça de vinho vivo, com meu picadinho de vó, meu arroz fumegante e subitamente compreendi a necessidade que algumas pessoas têm de aparecer... Nem todo mundo tem a graça de chegar em casa e encontrar um bilhetinho na panela!

Até!
11/09/2007 ..

Blogs, ser ou não ser...



Dizem que esse blog virou referência, que alguns até se pautam por ele. Se aconteceu, foi sem querer. Eu juro! É verdade que ando recebendo até release de assessoria de imprensa, coisa estranha...

O propósito está longe disso, vale lembrar. Vim parar por essas bandas meio sem saber bem o que fazer. Fui ficando, ficando, tomando gosto pela coisa. Tanto gosto, que não consigo mais parar! Tenho até sido convidada para escrever prefácios para o livro de alguns amigos. Os últimos que escrevi foram para o novo livro do Claude Troisgros e para o do Celeiro. Meus dois mestres: Claude Troisgros e Rosa Herz. Reverência, e que responsabilidade!

Nos dois casos a tarefa não foi nada fácil! Fiquei tão emocionada com o convite que achei que não era capaz! Mas foi só sentar, fechar os olhos e deixar os dedos trabalharem. Assim mesmo, sem complicar demais, seguindo o compasso do coração. De uma só vez, como encher o peito de ar e respirar fundo no cair da tarde do Leblon.

Mais ou menos como eu acredito deva ser o ato de cozinhar: sem complicações ou excessos. De viver também, mas nesse caso eu ainda complico um pouquinho. Se não complicasse a pressão já teria baixado!

Até!
12/09/2007 ..

Leblon, o verbo!




De vez em quando eu penso que vou acabar ficando sem assunto, afinal, cozinhar diariamente é uma coisa, escrever, é outra! Mas aí basta sair caminhando pelas ruas do meu Leblon e a inspiração subitamente toma conta de mim.

Outro dia, eu estava sentada com o Frederico na porta da livraria Argumento - do lado de fora -sim, porque apesar de ser a minha livraria preferida, eles têm esse probleminha: não deixam cachorro entrar! Isso já está ficando meio fora de moda – thanks God! – e eu desconfio que mais dia menos dia, eles vão se dar conta disso. Enfim, mesmo do lado de fora, eu me divirto. Mas o Frederico fica injuriado, até em shopping ele é tratado com mais deferência e, por conseqüência, eu gasto mais! Pensem nisso senhores livreiros!

Era domingo e os domingos no Leblon são como os fins de tarde em cidades do interior. As pessoas saem para caminhar pelas ruas, falam umas com as outras, confraternizam. Uma senhora parou para falar com o Frederico, primeiro o reconheceu, ele é uma celebridade no Leblon: esse não é o Frederico?
É, eu respondi.
Ela olhou para ele e disse: Ele é o cachorro da Roberta Sudbrack, não é?
É, eu respondi.
Depois de algum tempo ela resolveu perguntar: você não é a Roberta Sudbrack, é?
É, eu respondi!
Gargalhamos juntas!

Outra parou, também para falar com o Frederico, ele é páreo duro! Conversamos sobre esse clima de interior, de aconchego que só o Leblon tem, e ela me disse essa frase: o Leblon não é um bairro, é um verbo! Achei fantástica a definição, simples e única, como o Leblon.

Acho mais, que é um verbo, livre, leve e de fácil conjugação. Hoje pela manhã caminhando pelo calçadão cruzamos – eu e Frederico – com o Chico Buarque, nesse caso se conjuga: ser Leblon! Ontem tomamos café da manhã no Talho Capixaba e comemos baguette sem miolo, com presunto fininho e queijo gouda derretido, nesse caso se conjuga: comer Leblon! Hoje almocei no Celeiro na companhia da Rosa e de todo o clã Herz, nesse caso se conjuga: conviver Leblon! Daqui a pouco dou uma fugida e saio para passear com o Frederico ao cair da tarde: nesse caso se conjuga: viver Leblon!

Até!
13/09/2007 ..

Almoço!




Hoje meu dia é mais feliz, porque além do jantar, tem almoço na casinha laranja à beira do canal. Eu adoro almoço. Adoro a luz que entra pela minha cozinha nos dias ensolarados, enquanto estamos preparando o mise-en-place do almoço. Adoro também, talvez especialmente, a luz dos dias nublados, chuvosos e, porque não dizer, aconchegantes. Eu me considero uma gaúcha muito carioca, mas contrariando minha amiga Calcanhotto, adoro dias nublados! Contudo, também não gosto de sinal fechado!

Almoço em dia nublado é muito melhor do que jantar, especialmente se depois a gente puder correr para casa, se instalar debaixo dos cobertores e de lá não sair mais. O ritual do almoço é diferente do jantar quando se está com pressa, mas quando se pretende curtir, acho que pode ser até mais interessante. Tomar um bom vinho no meio da tarde, comer sem pressa, admirar a vida que passa. Fico em êxtase quando percebo que algum cliente tirou o inicio da tarde para ser feliz. É um prato cheio para nós e para eles! Também acabo achando divertido o ritmo dos almoços de negócio, sempre mais agitados e corridos, mas não menos interessantes.

Na França, há uns dez anos, era muito comum entrar num bistrô no inicio da tarde e apreciar homens e mulheres de negócios comendo sem pressa, entrada, prato principal e sobremesa. Sem esquecer, é claro, o sagrado vinho da casa! Hoje em dia, não é mais tão comum. Comum mesmo são as baguetes recheadas com qualquer coisa que são devoradas entre um metrô e outro, e as filas que se formam nos traitteurs e boulangeries na hora do almoço.

Levando isso em consideração, pode até parecer utopia de romântico inveterado sonhar com almoços lentos e ritualísticos nos dias de hoje, seja na França ou aqui! Mas eu prefiro continuar acreditando que o ritual é invencível e que a vida pode, e deve, abrir espaço para as pausas de vez em quando, seja lá onde for, contanto que seja para ser feliz!

Até!
14/09/2007 ..

Feira...sem nenhum tostão!



Ontem ao sair do restaurante, já tarde da noite, combinei com o pessoal da cozinha que nos encontraríamos pela manhã na feira da Praça Santos Dumont, na Gávea. Cheguei em casa, tomei meu banho morno e comi meu misto quente quase perfeito, como de costume. Quando finalmente consegui repousar a cabeça exausta no travesseiro pensei: “Amanhã vou com outra bolsa para a feira. Preciso tomar cuidado para não esquecer a carteira”. E dormi.

Acordei em cima da hora, olhei o relógio e pensei: “Vamos pegar a xepa!”. Corri, tomei meu café preto com menos açúcar – estou tentando disciplinar meu paladar! – e comi meu pão com manteiga de cada dia. Troquei de bolsa, pois às sextas-feiras vou de scooter para o trabalho. Desci, montei na scooter e nada! Esqueci as chaves! Mas encontrei as do carro e pensei: “Vai você mesmo!”.

Som na caixa e rumo à xepa! Logo encontrei a moçada, já de sacolas na mão. Feira e supermercado para mim é perdição! Saí escolhendo: feijões verdes frescos, basílico roxo, ciboulette, alface mimosa, escarolas, bergamota de casca fina para preparar a chimia e coisas mais. Na hora de pagar, cadê a carteira?

Tal qual no meu sonho acordada, tinha esquecido! Cara de tacho, mas sem doce! Para a minha surpresa todos os feirantes disseram a mesma coisa: “Pode levar. Não é para o restaurante laranja que fica ali no canal? Depois passo lá e pego!”.

Continuei com cara de tacho, dessa vez um tacho ainda sem doce, mas para lá de satisfeito! Entrei no carro, rumei para casa, peguei a bendita carteira e voltei para a feira. Pagamos todas as nossas dívidas adiantadas e voltamos felizes para o restaurante.

Meu avô sempre me dizia que é melhor ter crédito na praça do que dinheiro no banco!

Até!
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